O Trigo e o Joio

— uma parábola sobre pertencimento espiritual —

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Durante muito tempo ouvi a parábola do trigo e do joio sendo explicada como uma separação entre os bons e os maus.

Porém, à medida que fui refletindo sobre a alma, as multipersonalidades e o pertencimento espiritual, comecei a compreender essa passagem de uma forma diferente.

Passei a perceber que o trigo e o joio talvez não falem apenas de bondade ou maldade.

Talvez falem de pertencimento.

Em minha compreensão, o trigo representa aquilo que verdadeiramente pertence à comunidade espiritual de cada ser.

Representa as multipersonalidades ligadas à sua jornada, à sua história, às suas experiências e à sua alma-comunidade.

São consciências que participam do mesmo universo espiritual e compartilham aprendizados construídos ao longo da existência.

Já o joio representa aquilo que não pertence a essa comunidade.

Não necessariamente algo mau.

Não necessariamente algo perverso.

Apenas algo que possui outro pertencimento.

Outra origem.

Outra caminhada.

Outra comunidade espiritual.

Foi observando essa possibilidade que passei a compreender a importância da separação.

Quando Jesus fala sobre deixar crescer juntos o trigo e o joio até o momento da colheita, percebo uma grande lição sobre discernimento.

Enquanto a planta cresce, muitas vezes não conseguimos distinguir claramente uma da outra.

Da mesma forma, durante a experiência humana, nem sempre conseguimos identificar aquilo que realmente pertence à nossa essência e aquilo que foi apenas incorporado ao longo da caminhada.

Ideias.

Influências.

Hábitos.

Crenças.

Comportamentos.

Pensamentos.

Muitas coisas passam por nós.

Mas nem tudo nos pertence.

Nem tudo faz parte de nossa verdadeira identidade espiritual.

A colheita representa justamente o momento do reconhecimento.

O momento em que cada coisa retorna ao seu lugar de pertencimento.

O trigo permanece com seu dono.

O joio retorna à sua origem.

Não existe castigo nessa separação.

Existe organização.

Existe equilíbrio.

Existe retorno.

Essa compreensão também me levou a enxergar o trigo e o joio como uma metáfora da própria jornada da alma.

Durante a vida, acumulamos experiências, influências e aprendizados.

Quando chega o momento do autoconhecimento, começamos a separar aquilo que faz parte de nossa essência daquilo que apenas passou por nós.

É um processo semelhante ao arrependimento e à redenção.

Primeiro reconhecemos.

Depois compreendemos.

Depois devolvemos aquilo que não nos pertence.

E finalmente permanecemos apenas com aquilo que realmente somos.

Por isso vejo a parábola do trigo e do joio como uma parábola sobre pertencimento espiritual.

Uma parábola sobre identidade.

Uma parábola sobre a separação entre aquilo que faz parte da nossa alma-comunidade e aquilo que pertence a outras jornadas.

Talvez seja por isso que a colheita só acontece no tempo certo.

Porque antes dela ainda estamos aprendendo.

Ainda estamos crescendo.

Ainda estamos descobrindo quem somos.

E somente quando chega o momento da maturidade espiritual torna-se possível separar com sabedoria o trigo do joio, conservando aquilo que pertence à nossa caminhada e devolvendo, com respeito, aquilo que pertence a outras comunidades da grande existência.

Autor: Sérgio Teles

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Sérgio Teles